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Barcelona pelos olhos de uma arquiteta (por Giovana Paiva de Oliveira)

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1) Um Destino:

BARCELONA

Morei em Barcelona (Espanha) de outubro de 2006 a setembro de 2007, quando o Governo Brasileiro pagou uma bolsa para estudar o “doutorado-sanduíche”. Viajei com meu filho de 6 anos para minha primeira experiência fora do país e, como se pode deduzir, fui acompanhada de muito medo.

A seguir, revelarei a visão que assimilei de uma cidade turística e cosmopolita, reconhecida mundialmente, da qual carrego saudades e uma perspectiva de estudante/arquiteta e mãe que viveu a cidade que foi possível viver.

2) A HISTÓRIA

Como arquiteta, prefiro conduzir o leitor por um passeio rápido pela história. Barcelona é uma cidade romana criada no século I a.C., quando o Império Romano expandiu seu território por quase toda a Europa, portanto, tem mais de 2 mil anos.

Foi protegida por muralhas durante muito tempo e, ao longo de sua história, teve três muralhas. A primeira, quando os romanos se estabeleceram em território espanhol; a segunda, mais ampla, ao final do século XIII, quando a cidade se consolidou como núcleo urbano; e a terceira, ainda maior, a partir do século XIV, quando teve necessidade de proteger os campos de cultivos de seus camponeses.

RUA DO CENTRO HISTÓRICO DE BARCELONA DE HOJE

RUA DO CENTRO HISTÓRICO DE BARCELONA (ATUAL)

Posteriormente, adquiriu características góticas, com um centro geométrico e político (Plaza de San Jaume), tornando-se muito frequentada por mercadores, navegantes, comerciantes e profissionais liberais. Seu crescimento pós-muralha, determinou que abandonasse definitivamente as antigas formas camponesas e se tornasse uma cidade moderna, um centro industrial, reflexo das mudanças que o mundo ocidental viveu a partir da Revolução Francesa.

O TRAÇADO DA CIDADE ANTIGA ESTÁ MARCADO NO DESENHO DA CIDADE ATUAL

E A PLAZA DE SAN JAUME, CENTRO ADMINISTRATIVO E POLÍTICO DA CIDADE DE BARCELONA

A partir dos anos 1800, Barcelona participou de várias convulsões sociais, crises e transformações políticas. E, após a derrubada das muralhas, em 1854, inaugurou uma época de transformação radical e de reformas urbanísticas, que foram pensadas para resolver os problemas urbanos, particularmente o plan del Eixample de Ildefons Cerdá, em 1859.

Sua inserção definitiva no mundo capitalista se deu com a realização da Exposición Universal de 1888, que a equiparou às principais cidades desenvolvidas da Europa e provocou uma nova onda imigratória, dessa vez dentro da própria Espanha.

Em destaque a QUADRA do Plano Cerdá…

O PLANO DE ILDEFONS CERDÁ O EIXAMPLE ao centro, o BAIRRO GÓTICO, abaixo à direita e o bairro de GRACIA

Com o Plano Cerdá e a Exposição Universal, Barcelona se converteu em uma capital de vanguarda cultural, onde os novos avanços científicos e técnicos eram experimentados cotidianamente. Uma nova geração de industriais e políticos colocavam em marcha ambiciosos planos urbanísticos e industriais, que resultou na sua transformação em metrópole moderna.

Destaco que as grandes perspectivas do Plano Cerdá deu amplitude às ruas de Barcelona, destacando-se que quase todas as quadras foram ocupadas por edifícios com 6 e 10 andares, onde a altura não provoca sensação de sufocamento. A foto a seguir mostra um exemplo.

3) O que é Imperdível

PATRIMÔNIO ARQUITETÔNICO

Embora Barcelona seja reconhecida mundialmente pela arquitetura de Gaudi, vou me referi a um exemplar de autoria de outro arquiteto Lluís Domènech i Montaner. Trata-se do Hospital de la Santa Creu y Sant Pau, fundado no ano de 1401 com a fusão de seis hospitais que existiam em Barcelona. A 1ª foto dessa entrevista já mostra um detalhe do Hospital (fonte).

Este, ao final do século XIX, funcionava em instalações pouco adequadas e, em 18 de janeiro de 1902, recebeu o investimento do banqueiro Pau Gil que financiou a construção do novo edifício. Para agradar a seu benfeitor, foi agregado ao antigo nome de Hospital de la Santa Creu, o de San Pau, que foi inaugurado em 1930, em um projeto que se tornou um dos exemplares mais relevantes da arquitetura modernista catalã e que pode ser visto nas fotos abaixo.

Fachada principal do Hospital a distância

Fachada principal do Hospital em detalhes

Estátua e fonte na entrada do Edifício

O Hospital é uma autêntica cidade com ruas, jardins e edifícios, onde o pavilhão principal é coroado por uma torre esbelta e um relógio, e cuja fachada é revestida de ladrilho, mosaicos e anjos esculpidos em pedras. Logo à frente, existem fontes e uma grande escadaria. Nesse conjunto arquitetônico existe o pavilhão de entrada e mais 10 pavilhões situados no seu entorno, que receberam nomes de santos, santas e virgens.

Relógio da torre

Detalhe do Muro

Os pavilhões são rodeados de jardins e estão conectados por ruas e uma rede de 2 quilômetros de passarelas subterrâneas.

Pátio

É um hospital inovador, pois desagrega o edifício em uma série de células, que recebem muita luz e ar fresco. Ocupa uma área equivalente a nove quarteirões do Eixample e, desde que foi inaugurado, já passou por várias restaurações.

Em 1997, juntamente com o Palau de La Música, outro projeto de Lluís Domènech i Montaner, foi considerado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, pela singularidade construtiva e pela beleza artística.

O mais peculiar da visita a esse edifício é que ele recebe muitos turistas cotidianamente, porque está incluído na Rota do Modernismo de Barcelona, e, ao mesmo tempo, tem um funcionamento normal de hospital, com a parte de urgência, enfermarias, centro cirúrgico, consultórios, UTI e todas as dependências de um hospital. Durante nossa visita, vimos pacientes passeando ao sol, ambulâncias transportando pacientes, pessoas visitando familiares, além de muitos turistas. Nada parecia incomodar ou alterar a rotina do lindo hospital.

Ambulância

Para mais informações, consultem esse site.

ALGUMAS CURIOSIDADES

a) CONTROLE E PLANEJAMENTO DA CIDADE

Alguns dias após nossa chegada à Barcelona, os Correios entregaram uma carta endereçada ao meu filho, cujo remetente era: O PREFEITO DA CIDADE DE BARCELONA… Alguém pode indagar: “como é que o Prefeito da Cidade de Barcelona sabia que Rafael estava morando naquele endereço”?

Na verdade, a administração da cidade tem controle de tudo! Quando as pessoas chegam, imigrantes legais, para ficar qualquer tempo na cidade e quer usufruir os direitos civis, deve se apresentar às autoridades locais e providenciar uma série de documentos. A primeira providência é procurar um distrito da Prefeitura para fazer “Padró Municipal d’Habitants”, que é conhecido como “EMPADRONAMIENTO”. Nesse registro, deve comunicar o lugar onde vai morar, quem é, quantos familiares, passaporte, de onde vem e quanto tempo vai ficar.

O controle é interessante e necessário para o planejamento dos serviços públicos, como o sistema de água, esgoto, transporte, escolar e saúde, entre outros. Com a informação, podem dimensionar todos os serviços, adaptar e controlar a demanda e o uso da cidade… E tudo funciona perfeitamente!

Em seguida, com o “padró” também é preciso encaminhar a solicitação da Carteira de Identidade Espanhola. Eu e Rafael tivemos uma Carteira de Estudantes Estrangeiros na Espanha, com um número que nos identificava e, por isso, não era preciso portar o passaporte para andar com tranquilidade em toda a Espanha.

A escola, assim como o serviço de saúde, passou por procedimentos específicos. Inicialmente, fui à Secretaria de Educação, com o “padró”, informei onde morava e solicitei uma vaga numa escola pública do município. Em função disso, eles determinam quais escolas poderiam ser escolhidas e que se encontravam próximas. Apresentaram-me três escolas e escolhi a que me pareceu mais interessante.

Também com o “padró”, procurei o posto de saúde mais próximo para nos registrar e fomos encaminhados inicialmente para um médico pediatra, que se tornou o médico de Rafael em Barcelona. Quando era preciso, ligava para o Posto e marcava uma consulta com Dr. Soriano. Nessas ocasiões, a telefonista perguntava o nome do meu filho e o seu médico. Enfim, depois desse registro na saúde, recebi uma carteira de vacinas e era acompanhada por uma assistente social que ligava para minha casa, insistentemente,  avisando do agendamento das vacinas e consultas periódicas. Todas as consultas eram com hora marcada e o médico atendia pontualmente.

b) ESTACIONAMENTOS DA CIDADE

Barcelona é uma cidade cheia de estacionamentos escondidos, pois nunca se vê muitos carros estacionados nas ruas. Esta rambla, por exemplo, é um estacionamento:

Era por ela que levava e buscava meu filho na escola todos os dias. Caminhávamos cerca de 15 minutos sobre um estacionamento! Toda a área da foto acima, até perder de vista, são vários estacionamentos subterrâneos, com 3 andares no subsolo. E o mais incrível é que existe arborização frondosa que permite que as pessoas caminhem na sombra.

Esse modelo de estacionamento se repete em vários lugares e são sinalizadas por uma placa luminosa, com a letra P, indicando o número de vagas disponíveis. O acesso é pago, mas qualquer pessoa pode estacionar o carro. Neles, existe uma portaria automática, na qual o proprietário do veículo insere seu cartão (tarjeta) e é contabilizada a quantidade de horas ou minutos que permaneceu estacionado.

Depois de estacionar, os motoristas saem por elevadores e, ao retornar, também voltam por um acesso como mostra a foto a seguir.

d) A CIDADE DOS CACHORROS

Percebe-se que em Barcelona, muitas pessoas criam cachorros como se fossem filhos. Ao longo desse tempo, observei que algumas praças têm até espaço reservado para cachorros, que são separados do espaço reservado às crianças (às vezes, tem até brinquedos específicos e com área superior ao espaço das crianças).

Em geral, são sinalizados (placa um cachorrinho pintado), com cerca de madeira baixa, água, bancos e sombra.

Grande área para os cachorros…

Destaco que na área das crianças, além da sinalização para elas, tem também proibindo a presença deles. Para mim, essa indicação podia significar que ao cachorro estava disponível todo o resto da praça e para as crianças, apenas aquele cantinho…

Área para crianças…

Todos os dias pela manhã, quando ia deixar Rafael na escola, sempre encontrava muitos pais e mães de cachorros passeando ou apenas observando seus filhotes. Esses pais, em geral, estavam bem vestidos, como se fossem trabalhar. Pareciam estar cumprindo uma obrigação paterna.

4)  Sobre a entrevistada:

Giovana Paiva de Oliveira: macauense, natalense, potiguar. Arquiteta e professora, com mestrado e doutorado. Em análise a muitos anos, descobriu a pouco que ainda busca se descobrir e descobrir como viver uma vida em harmonia. Adora escrever e mantém vários blogs secretos, além de ter como hobby atual concorrer aos prêmios de ananomundo.

 

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Engenheira por formação, fez doutorado em Madrid onde começou sua paixão pela Europa. Aprendeu, com seus pais, desde criança a gostar de viajar. Adora viajar e diz que "sem viajar não me reconheço"! Escreve sobre suas viagens pelo mundo afora de forma divertida e leve. Escritora por hobby, além desse blog tem dois livros de viagens publicados.

Comentário para Barcelona pelos olhos de uma arquiteta (por Giovana Paiva de Oliveira)

  • Muito bom, Ana! Parabéns! Conheci seu site e gostei mundo! Super completo e de conteúdo de primeira!

    Este mês resolvi criar o meu blog também! Passa lá: http://algomaisassim.blogspot.com.br/

    Filho 15 de julho de 2015 20:34 Responder
    • Oi, que legal. Com certeza vou dar mais que uma passada no seu blog. Já está anotado!

      Ana Célia 19 de julho de 2015 22:51 Responder

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