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Índia e Nepal (por Auxiliadora Campos)

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“Na Índia, estivemos em Delhi, Agra, Jaipur e Uidapur, uma pequena área deste imenso país. Aproveitamos a oportunidade e fomos por 5 dias a Kathmandu, no Nepal”.

1) Por que Índia e Nepal?

Já há algum tempo meu marido e eu desejávamos conhecer países asiáticos. Minha primeira tentativa neste sentido foi visitar o Japão. Na ocasião fomos surpreendidos pelo Tsunami que atingiu o país. Ainda no mesmo ano, um casal amigo convidou-nos para ir à China. Lá fomos nós, conhecer um país sobre o qual havia muitas controvérsias. A experiência valeu a pena. O ano passado, começamos a pensar numa outra viagem à Ásia e surgiu a possibilidade de ir à Índia por 13 dias. Estivemos em Delhi, Agra, Jaipur e Uidapur, uma pequena área deste imenso país.  Aproveitamos a oportunidade e fomos por 5 dias a Kathmandu, no Nepal.

Essa viagem causou-me mais impacto que a ida à China. Talvez porque os chineses com o maoísmo e o modelo sócio econômico que o seguiu tenham de alguma forma se descaracterizado enquanto cultura milenar, já os indianos, apesar das invasões e do domínio inglês por cerca de 200 anos, mantiveram sua crenças religiosas pautadas, sobretudo na reencarnação.

2) Como vivenciei a Índia?

Como um “caos organizado”, um caos “harmônico”. Aqui no Brasil quando se fala em periferia, com raras exceções ela está longe dos nossos olhos. Na Índia não, beleza e feiura, pessoas e animais, luxo e lixo, bons e maus cheiros convivem juntos. Daí tudo ser vivido muito intensamente, pelo menos por nós ocidentais. Faz parte desse caos organizado, o trânsito, experiência muito singular, onde ônibus, carros, riquixás, tuk-tuks, milhares de pessoas, vacas passeando tranquilamente ao som de um “buzinaço” infernal e pasmem, sem colisões, convivem de forma tranquila. Nosso guia com humor nos dizia: “para ser motorista na Índia são necessários um bom freio, uma boa buzina, muita paciência e um tanto bom de sorte”.

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Algo que achei mágico foi o colorido das vestes, cores geralmente fortes, mas numa composição muito especial, com harmonia na combinação de cores, nos degradés que exploram uma mesma tonalidade em suas inúmeras possibilidades, nas composições de desenhos diferentes numa mesma vestimenta, na delicadeza com que usam missangas, etc., etc. Basta olhar com detalhe uma mulher vestida de sári ou usando um punjabi (conjunto composto de uma bata longa, uma calça e uma echarpe também longa). No seu vestir, a mulher indiana parece celebrar a vida, louvar seus deuses, com seu colorido, seus brilhos e adornos em seus olhos, testa, nariz, orelhas, pescoço, braços, antebraços, tornozelos, pés e dedos tanto das mãos como dos pés.

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O modelo indiano de mulher nada lembra o modelo ocidental que valoriza a magreza. Cheguei até a ver 3 ou 4 academias, mas essa preocupação parece não fazer parte do quotidiano. Não vi indiana expondo ou insinuando seu colo, nem usando roupa sem manga. Os seios jamais ficam à mostra ou são insinuados. Já com o abdome não podemos dizer o mesmo. Os sáris têm como parte superior um top e os 6 metros de tecido com os quais ela se envolve para compor seu visual, geralmente permitem ver parte das costas ou do abdômen, o que não parece constrangê-las quer sejam idosas ou jovens.

Também me chamou a atenção o rosto sério, marcado de sol, os calcanhares mostrando fissuras, o pouco sorriso das mulheres nas ruas. Pareciam cansadas, sobrecarregadas.

Curiosidade: por onde andei não vi lojas de roupa íntima feminina. Pedi ao guia que me levasse a alguma, no que não obtive sucesso. No Nepal, resolvi procurar uma por conta própria. Visitei dois tímidos shoppings e pesquisei onde poderia comprar roupas íntimas ou lingerie, palavra essa era compreendida facilmente pelas vendedoras. Apenas no fundo de uma loja encontrei numa pequena e discreta caixa calcinhas para vender, por sinal bastante sensuais. É surpreendente que, em quase 20 dias de viagem, sequer vi um soutien, ou uma camisola de seda, jersey ou similar à mostra. Descrição? Repressão? Proibição? Aspectos culturais? Não sei explicar.

Fiquei também fascinada com a beleza dos templos; mesquitas e palácios; com a delicadeza e riqueza com que o mármore, a madeira e o barro foram trabalhados por indianos, árabes e persas; com as pinturas, as esculturas; as peças incrustadas com pedras semi-preciosas, enfim com tudo que tem a ver com arte, com estética.

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3) A alimentação

Jamais esquecerei o sabor dos pães que comi na India e no Nepal. O sabor do naan indiano, em toda sua simplicidade, será sempre lembrado por mim tal qual as “madeleines” ficaram impregnadas na memória de Proust. A culinária indiana tem cheiro forte. Curry e pimenta de vários tipos não faltam. Não se come carne bovina, sendo a maior parte da população vegetariana. Carnes, só de frango e cordeiro. Infelizmente, por restrições ligadas à saúde, tive que ser bastante cuidadosa em relação aos temperos, apreciando-os com muita moderação.

4) A água

Estrangeiro não deve beber a água que os nativos bebem nesses dois países. A recomendação é usar água mineral até para escovar os dentes. No meu grupo, não sei se, por problemas com a água ou por excesso alimentar,  6 dentre os 16  tiveram distúrbios gastrintestinais.

5) A pontualidade

No que pese a minha impressão de um país com pouca organização, surpreendi-me com o rigor com que a programação foi cumprida pela agência de turismo contratada. Nos hotéis, a qualidade de atendimento dos nativos era indiscutível. Tom baixo de voz, sorriso, delicadeza, prontidão eram a tônica. Pensei com meus botões: influência da colonização britânica?

É surpreendente o número de funcionários indianos que nos atendem nos hotéis e restaurantes. Literalmente, se tivermos 10 malas, rapidamente surgem 10 indianos enfileirados para carregá-las, o que nos deixa meio tontos com a questão das gorjetas.

6) A tranquilidade nas ruas

Com exceção para o intenso assédio dos vendedores de rua para que compremos seus produtos artesanais, na India, ao contrário do Brasil, passado o impacto da chegada, embora às vezes confusos no meio de tanto movimento e tanta gente, sentimo-nos tranquilos nas ruas. Nem parece o Brasil atual, com esse clima de intensa insegurança social, violência e impunidade. Claro que na Índia e no Nepal, assim como em outros países há outras formas de violência, mas estou me referindo apenas à situação nos espaços públicos.

7) Sobre a política

Os dias que passei na Índia precederam as eleições para primeiro ministro e claramente mobilizavam a população. Ouvi muitos depoimentos a respeito. Há mais de 100 anos descendentes diretos e indiretos de Ghandi estavam no poder e os indianos, em sua maioria, desejavam mudanças na condução do país. Narendra Modi, o eleito, representava para eles a esperança de dias melhores. Já o Nepal, até há seis anos uma monarquia, estava se iniciando no modelo democrático. País muito pobre e de infraestrutura bem precária, povo bastante simpático e simples.

8) O meio ambiente

Tanto a Índia como Kathmandu, capital do Nepal, padecem com a poluição. Nos quase 20 dias em que estive nos dois países não vi o azul do céu. A poluição formava uma densa camada branca que impedia sua visão. A minha fantasia era que ao chegar em Kathmandu veria uma cidade cercada de montanhas. Qual não foi minha surpresa quando cheguei e vi em torno de 10% da população usando máscaras. Perguntei a razão de seu uso e me disseram: a poluição dos carros. Dos carros? É. Não temos indústrias no Nepal. Olhando para carros e motos vi que a frota era muito velha. Só dois dias depois meus olhos, já mais familiarizados, começaram a enxergar além da densa camada de poluição, sombras das montanhas.

No que pese ser a água uma das riquezas do Nepal falta água para a população, sendo as condições de higiene muito precárias.

9) O que marcou

Dois aspectos foram marcantes na minha ida ao Nepal:

1) Ver a cremação pública de mortos às margens do rio Bagmati, no templo hindu Pashupatinath, Patrimônio da Humanidade. É uma experiência impactante para nós ocidentais. A cremação ocorre às margens de um rio, na ocasião quase seco, pois não era época de chuva, em meio a familiares dos mortos, turistas, vacas, macacos, nativos, figuras exóticas tidas como santos, configurando algo muito surreal ao olhar de surpresa e perplexidade dos ocidentais. Entrei nesse templo/santuário por acaso, pois não constava no roteiro da agência de viagens. Foi uma experiência muito forte.

2) Saber da existência de deusas vivas, meninas que logo após o nascimento são escolhidas como deusas, protetoras do mal e doadoras de boa sorte, encarnação de Kali, a deusa da energia. Essas meninas não podem frequentar a escola e são consideradas muito especiais para andar, sendo sempre transportadas em carros, tronos e braços de outras pessoas. Elas deixam de ser consideradas deusas quando menstruam e, então, podem viver como pessoas comuns. Essas deusas ficam recolhidas em palácios sob a guarda de poucas pessoas e só aparecem em público algumas vezes ao ano, em determinados festivais e celebrações. Muitas carregam para sempre no corpo as sequelas das limitações físicas que lhe foram impostas.

10) O que é imperdível

Em Kathmandu fiz um passeio aéreo pela Cordilheira do Himalaia, podendo apreciar toda a imponência do Everest. Lamentei não ter visitado vilarejos mais próximos das montanhas, não para fazer trilhas, pois minha idade não permite tal aventura, mas para apreciar a natureza mais de perto.

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É imperdível tanto em Kathmandu como em duas cidades vizinhas, Patan e Bhaktapur, uma visita às Durbar Square, praças magníficas em sua arquitetura, e onde no passado monarcas foram coroados.

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11) E finalmente…

Espero que os leitores curtam essas impressões e se disponham a aventurar-se por esse tipo de viagem. Lembro, no entanto, que não se trata de uma experiência glamourosa como visitar Paris, Roma, Londres ou Nova Iorque. O turista tem que estar disponível para o contato com as diferenças e para vivências não habituais, diria até viscerais. Caso contrário ele voltará muito frustrado. Acho também um pouco temeroso fazer essa viagem sem o apoio de uma companhia de turismo, pelo menos com um bom guia, pois embora a comunicação em inglês seja fácil, a presença de um guia ajuda na compreensão da cultural local, já que ela é bem diferente do modelo ocidental.

Esta viagem levou-me a reflexões e indagações sobre muitas questões que já me inquietavam: a transitoriedade e finitude de nós humanos, as desigualdades sociais, nossa desumanidade, o ritmo de vida que nos impomos ou que nos é imposto, a dialética ter e ser, a simplicidade, a felicidade. Enfim, voltei mais rica interiormente. Só me tocara de forma semelhante quando estive na Patagônia e entrei em contato com sua exuberante e grandiosa natureza.

Ribeirão Preto, 29 de junho de 2014

*12) Sobre a entrevistada

Maria Auxiliadora Campos, natalense, residente em Ribeirão Preto-SP, médica psiquiatra e psicanalista, amante da boa leitura, da natureza, de uma boa conversa e de viagens.



Engenheira por formação, fez doutorado em Madrid onde começou sua paixão pela Europa. Aprendeu, com seus pais, desde criança a gostar de viajar. Adora viajar e diz que "sem viajar não me reconheço"! Escreve sobre suas viagens pelo mundo afora de forma divertida e leve. Escritora por hobby, além desse blog tem dois livros de viagens publicados.

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