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Madrid, vámo nos que nos vamos! (2) – Los Niños

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LOS NIÑOS EN MADRID

Só Pra Contextualizar…

Como já falei no texto 1, Madrid é uma cidade apaixonante… Tá no meu coração e na minha alma. Sei que de alguma forma, sou um poquito espanhola. Os anos lá vividos me demonstraram isso…

Um site de dicas!

Neste segundo texto, vou conversar um pouco sobre a vida com meus filhos por lá…

No começo eu pensava que seria difícil conciliar meu doutorado e os meninos. Que nada! Mais fácil que aqui no Brasil, pelo menos mais fácil que em Natal. As condições eram favoráveis para que os pais pudessem estudar ou trabalhar, sem deixar os filhos “soltos” ou inseguros… Era legal! Vou contar um pouco dessa história.

Era uma vez…

Los Niños y El Cole

Os meninos passavam quase o dia inteiro na escola (chamavam “el cole”, como um diminutivo de colégio). Almoçavam por lá, e todo começo de semana enviavam o cardápio aos pais, para o caso de alguma criança não poder comer alguma das coisas e substituírem…

Um médico e um dentista passavam periodicamente pela escola para ver como ia a saúde de los niños! Se fosse algo simples, eles mesmo “cuidavam”, se não, os pais recebiam uma nota, e depois eram “cobrados” por telefone e até em visitas pessoais se a criança tinha sido levada ao especialista. Isso há mais de vinte anos atrás (ôps!).

Clique aqui para ver mapa, rua e foto do Colégio Público San Juan de la Cruz

Um parênteses: Em termos de saúde tínhamos um seguro privado que a “Capes” pagava. Não lembro de tê-lo usado nunca. Os hospitais e postos de saúde públicos eram de primeira qualidade. A cada dois quarteirões, um posto de saúde e uma escola pública.

As aulas aconteciam na parte da manhã. A tarde eles faziam as tarefas lá mesmo. Depois, esportes, teatro, línguas, e/ou outras atividades a escolher. As professoras eram verdadeiras educadoras. Estava mesmo em “outro mundo”!

Quando viemos embora para o Brasil, o meu filho mais novo, então já com sete anos, me disse que queria levar duas coisas da Espanha: a neve e sua professora! Vejam só!

As reuniões de pais e mestres eram muito engraçadas. Havia também muitos pais, não só mães. Só que todos falavam ao mesmo tempo! Pra eles isso parecia normal. Era uma loucura! Mas, no final, com a participação de todos, as coisas eram resolvidas!

Ah! E a escola tinha também atividades extras, como visitas a museus, zoo, etc.

Não sei se ainda é assim, tanta coisa mudou por lá…

Os Finais de Semana e as Férias…

Os finais de semana eram ótimos. Com várias opções de lazer, nunca se estava aborrecido. Só o Parque do Retiro já era uma festa! Teatrinhos ao ar livre, barcos para passear, locais para pedalar, patinar, tudo enfim…

Parque do Retiro

Além dele tinha também outro grande parque, bem maior: A Casa de Campo, que tinha até teleférico, locais apropriados para piqueniques, etc.

E os museus… As crianças aprendiam “ao vivo”. Estavam sempre falando em Picasso, Salvador Dali… Pintores, poetas e escritores… Enfim, era um aprendizado vivenciado e não só de livros.

Em alguns fins de semana visitávamos as cidades vizinhas, e quando nevava iámos até Navacerrada uma estação de esqui a poucos quilômetros de Madrid. No verão, quando não estávamos viajando fora da Espanha, muitas vezes acampávamos em locais com piscinas naturais, cujas águas geladas vindas das montanhas somente los niños aguentavam!

Além disso, nas férias rondávamos pela Europa… França, Inglaterra, Itália, Bélgica, Holanda, as outras cidades da própria Espanha, e até a Grécia, estavam bem ali, “à nossa mão”!

Daniel, em Mikonos, na Grécia

Daniel e Marcel (por trás: eu e meu mano Carito) em Barcelona no Parque Guell.

Com as férias do verão durando quase três meses para as crianças, iámos “de viagem” fora da Espanha por um mês… E os outros meses? Tínhamos nosso trabalhos de pesquisa para fazer! O que fazer com los niños? Tranquilo. A Prefeitura tinha uns esquemas ótimos de ofertas de variados tipos de vacaciones para as crianças. Praias, montanhas, granjas-escolas…

Sempre optávamos por esse último tipo por não termos algo parecido no Brasil e porque achávamos que os meninos aproveitariam mais em termos de lazer e aprendizado. Lá passavam uns vinte dias.

Brincavam, plantavam produtos como hortaliças, vegetais e frutas, colhiam e até cozinhavam!  A noite contavam estórias, faziam suas “festas”… Até as roupas eles lavavam, mas, na verdade eram que chegavam “podres”. Na volta, eu metia tudo na máquina de lavar mil vezes! Enfim, tudo era festa!

Marcel, como era menor, não ia nesses programas da Prefeitura, apesar de muito bem organizados, com diversas reuniões que antecediam, com tutores para cada grupo de cinco, etc e tal… Mas, ele ainda era muito pequeno pra ir só…

Entretanto, existiam também outras opções para férias, tanto em instituições públicas como em privadas, na própria Madrid: Escolas de pintura, de cerâmica, escolinhas de férias com piscinas, e tantas outras…

Seus Afazeres e Suas Peraltices…

Daniel

Era o “mais intelectual” escrevia poesias em espanhol. Fazia desenhos e modelagens com massa, e dizia que eram do estilo de “Picasso” ou de Miró”. Lia livros quase todas as noites, entre eles Juan Ramón Jiménez, Garcia Lorca…

Um dos poemas que ele escreveu lá, influenciado pelo livro “Platero e Yo” de Juan Ramón Jiménez, o copiarei a seguir. Ele tinha nove anos.

El Burro

El burro Platero va hacia la mar

Y no hace nada más que jugar.

De Platero viene Juan Ramón Jiménez

De Juan Ramón Jiménez viene Platero.

Allí está Platero, allí estoy yo

y esta poesia se acabó.

                                                                         (Daniel Cavalcanti Campos)

Até hoje ele escreve poesias! E, são lindas (eu sou uma mãe coruja, mas podem conferir aqui).

Na escola, sua veia artística e cultural já aparecia quando ele escolheu fazer teatro, entre as atividades extra-escolares. Além disso, fazia inglês e alguns esportes como natação e judô.

Fazia questão de ir e voltar para a escola sozinho. Já se considerava “grande” pra ir acompanhado pelos pais, ou alguns dos dois tios que moraram por lá, cada qual um ano.

Um dia, encontrei uma amiga que me perguntou se Daniel já andava de metrô sozinho. Eu disse que não, claro. Pois, ela o tinha visto por lá! Meu Deus, fiquei pasma! O pai “botou ele num canto de parede” pra que confessasse a “arte”.

Ele disse que o professor de inglês havia faltado e um pintinho do colégio (havia pintos coloridos por lá, imaginem!) tinha fugido e ele e mais dois amigos (dois Andrés) saíram a procura… No metrô, é? Pois é. Foram, pularam as catracas, e sem um “tostão furado” passearam de uma estação a outra, indo e voltando, sabe-se lá quantas vezes…

Vale salientar que o metrô de Madrid é ótimo! Um dos melhores que já vi por esse mundo afora!!!

Daniel também gostava de levar os visitantes brasileiros ao Museu de Cera. Lá resolvia “fazer medo” as pessoas, incluindo minha mãe, mostrando de surpresa a parte de terror!


Fachada do Museu de Cera, em reforma…

Também servia de guia à minha mãe pelos metrôs, mas a enganava de vez em quando fazendo-a andar mais do que o devido.

O intelectual e o espírito brincalhão andando de mãos dadas (ou seria espírito desobediente? hehehe) … Ele era “danado” como se diz no nordeste brasileiro. Mas, pelo trabalho que dava nas escolas anteriores no Brasil, eu comecei a ficar preocupada porque na Espanha não recebi nenhuma queixa.

Fui perguntar a sua professora, a Señorita Victória, que já devia ter perto dos sessenta (no começo eu achava estranho uma professora assim mais velha, mas ela era fantástica,  la mejor!). Ela tranquilamente me disse que sim, que ele dava um certo trabalho, que às vezes casi le quitava los pelos, mas que era dever dela resolver esses problemas dentro da escola. Isso sim, que era uma professora, uma educadora, e não apenas uma “repassadora de livros”!

Ele gostava muito da Señorita Victória. Apesar de danado, ele gostava de disciplina. (Por isso mesmo, talvez tenha se dado tão bem quando voltou para Natal e estudou no Henrique. Dona Noilde era “seu ídolo”).

Tinha outra característica que apareceu logo cedo: era um gourmet (ainda é!). Fazia comidinhas e oferecia aos meus irmãos. Algumas vezes tinha cardápio e tudo!

Tentou também ser “comerciante”. As suas “artes” feitas em cerâmicas e massinhas de modelar foram levadas, uma ou duas vezes, para serem vendidas numa banquinha que montou em frente ao nosso prédio. Levava o irmão junto. Creio que nunca venderam nada, mas se divertiam…

(Daniel hoje é publicitário. É produtor cultural da UFRN. É ainda designer, compositor, poeta e promove eventos culturais! Ufa! É um artista e um empreendedor esse meu filho! Como hobby, continua gostando de cozinhar, agora aperfeiçoado por um curso de “cozinheiro e chef”).

Prédio onde morávamos… Calle Guatemala, esquina com a Chile.

Marcel

Marcel, mi otro hijo, mais festeiro e meio “punk” (como dizia meu irmão Carito), bailava às noites em cima da cama com o rádio ligado. Sempre perguntava antes: “tio Carito, puedo bailar?”.

Quando voltava da escola ia “atirando” bombas imaginárias por todo lugar. “Mamãe, pra que serve policia? Ele mesmo respondia: “Não serve pra nada” e “bum” atirava sua bomba imaginária. “Pra que serve banca de revista? Não serve pra nada”  e “bum”, por aí ia…

Essas mesmas perguntas e respostas ele fazia ao meu irmão Carito, quando era “sua vez” de buscá-lo no Cole.

Um dia, ele disse a Carito, que passou um ano com a gente: “quando eu crescer vou ser engenheiro e construir uma torre. Vai ter quadros de Picasso e lá em cima um restaurante onde se vai comer javalis…”. Ah esse menino! Além de destemido, já tinha uma imaginação que ia longe…

Esse mesmo irmão foi ensiná-lo a andar de bicicleta nas calçadas de ruas cercanas. E lhe disse: “Marcel, vou lhe soltar, você pedala e ao fim da ladeira você freia”. Marcel, com seu espírito “punk” não freou. Foi freado pelo muro à sua frente, e assim continuou seu aprendizado feliz da vida!

Na escola praticava judô e era competitivo. A exemplo do irmão, gostava de trazer medalhas pra casa! Aprendeu a nadar “na marra” numa piscina enorme de um clube público perto de casa. Já gostava de desafios…

(Hoje ele é engenheiro de operações da Google. Não construiu uma torre real, mas construiu sua própria torre-vida, enfrentando o desafio de morar noutro país e conseguindo trabalhar numa das melhores empresas do mundo. Javalis, ele pode comer quando quiser. Mas, talvez nunca mais aqueles com sabor de infância e da Espanha! Porém, os quadros de Picasso e de outros artistas, ele pode continuar a ver pelos museus do mundo afora…).

Marcel no parquinho perto de casa, com sua bici…

Tem umas tantas coisas engraçadas pra contar dele. A primeira vez que foi pra escola em Madrid e perguntei se gostou, ele disse que sim, mas tinha muita pena dos novos coleguinhas pois falavam errado! Pois é, o espanhol soou pra ele como um português infantil, de niños que ainda não tinham aprendido a falar direito.

Mas, em um mês ele virou um “espanholito”. Falava com sotaque e tudo! Aprendeu até as palavrotas! Nossa!

Outra vez, meu irmão do qual já falei, gostava de brincar com ele (e aquelas brincadeiras “bestas” de mostrar a bunda). Pois ele apresentou-o sua professora assim: “Señorita Maripaz, ese es mi tio que me enseña el culo”. Que verguenza!

Era um menino fácil de fazer amigos. Na maior parte do tempo, calmo e alegre. Mas, desde bebê tirava um dia do mês pra enlouquecer um. Ou fazia o que queria ou se transformava na mais enfurecida criança. Esse preâmbulo foi pra contar uma das peraltices dele. Lá vai…

Meu outro irmão, Mário, tinha ido buscá-lo no colégio e como o supermercado Jumbo ficava a poucos metros de casa, apenas tinha que se desviar um pouco, resolveu passar lá antes. Marcel disse que não ia, meu irmão insistiu de forma incisiva, ele deitou-se (na verdade, jogou-se) no chão em plena calle, e começou a espernear e gritar. Meu irmão desistiu, claro…

Ah, o mais engraçado é que ele achava que era francês. Fui explicar que o nome dele foi escolhido quando eu estava lendo um livro de Marcel Proust, um grande escritor francês. Ele entendeu que ele era que era o francês. E demorou muito a se achar brasileiro. Sempre que perguntavam ele dizia “soy frances”! Pode?

Ah, esses meninos!

Boas lembranças deles pequeños e dessa cidade que tão bem nos acolheu e onde eles aprenderam tanto!

“Madrid, claro que si”!

“Vámo nos que nos vamos!”


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Engenheira por formação, fez doutorado em Madrid onde começou sua paixão pela Europa. Aprendeu, com seus pais, desde criança a gostar de viajar. Adora viajar e diz que "sem viajar não me reconheço"! Escreve sobre suas viagens pelo mundo afora de forma divertida e leve. Escritora por hobby, além desse blog tem dois livros de viagens publicados.

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